segunda-feira, 7 de março de 2011

Carta de Clementina a Marco na noite seguinte à morte de Pedro Jorge


Marco, é a primeira noite que Pedro Jorge está fora de casa... Ao menos a sua pessoa santa, que ontem eu tive a graça de contemplar em uma luz de beleza e de pureza indivisíveis.
Não tenho com quem chorar, e penso em você, que em tudo estava mais perto dele do que eu.
Diante daquele leito, que me pareceu um altar, eu senti pela primeira vez, com uma emoção que nunca poderei exprimir, que a morte vem do Alto e que para Pedro Jorge foi uma assunção.
Reconheço-me agora indigna por ter me aproximado desta alma, que tremo a esse pensamento. Fico cheia de confusão e de dor quando penso que - vendo-me agora como verdadeiramente sou – Pedro Jorge tenha que me riscar do número dos seus amigos como uma das coisas vãs e menos dignas de quem não devia ter se aproximado nesta terra. Ou talvez a sua caridade acendendo-se de maior ardor, terá piedade de quem mais precisa?
Parece-me que se realizou para mim a palavra do Evangelho: “Ferirei o pastor e as ovelhas ficarão dispersas”. Era a sua bondade que nos mantinha unidos.
O Senhor contou os passos que ele dava para vir a mim e à minha mãe, para me trazer felicitações e saudações; as suas palavras invariavelmente serenas, a luz dos seus olhos dulcíssimos; que eram de crianças na ingenuidade e de vidente na profundidade. Quem poderá apagar da nossa lembrança o seu sorriso, e quem o poderá restituir?
E o Senhor, Marco, nos presenteou aquela noite na ferrovia, entre Turim e Oulx, na brancura da neve. Deus permitiu que gozássemos de sua presença e o admirássemos de várias maneiras: com aquele casaco impermeável, ajudando os ferroviários a transportar as bagagens, e depois indo de um extremo ao outro do trem, debaixo de neve e de água, a declamar os seus caros versos – Carducci e Marradi – em voz alta, porque achava que ninguém o escutava. Aquela voz chegava até nós como ondas, ora muito fortes, ora fraquinhas! Como a gente ria! Só ele podia fazer assim, isto é, ser pura e simplesmente ele. Não se lembra quando voltou ao seu lugar, da tempestade de protestos com que foi recebido por ser tão barulhento? Veio sentar-se tranquilamente perto de mim. Julguei logo depois que ele estava dormindo... Não, estava rezando o terço. Oh! Esse, terço de contas pardas que nos deixou, se até anteontem me era precioso, hoje me é sagrado, porque prefiro deixar tudo a perdê-lo.
E dizer que nós comemos naquela noite – nós moças – e ele mesmo nos animou a isso, com medo de ficarmos incomodados no dia seguinte; mas ele não, não comeu. Parece que ainda estou vendo você dormindo pela madrugada naquela plácida alvura de sonho, naquela capelinha, em redor dum pequenino altar em que vocês pareciam tão fortes e bons que me senti absolutamente distante de vocês.
Sem ele, quem ainda irá à montanha? Oh! E a sua mochila? Não se lembra daquela sua mochila e das pedras com que ele enchia – para encontrar um átomo de granada – dizíamos nós – e ele ria, ria e esplendia sua alegria. Lembra-se do seu assobio para chamar quem estava distante? E os seus cafés da manhã? Do doce para o salgado, do ácido para tornar ao doce e recomeçar com o salgado. E eu: “Mas Frassati, você me faz perder o apetite!” E ele se desculpava como um réu que havia cometido uma grande falta e nos oferecia todas as suas boas coisas com aquela voz profunda, com aquele grande gesto, que quem o tiver fixado na alma, lembrará sempre como imagem viva de sua cordialidade.
E depois tinha gentilezas tão delicadas, tão esquisitas, que aquela sua cabeça forte lembrava, em alguns momentos, despreocupado e sonhador como uma criança. Se lhe ofereciam uma laranja, desfazia-se em agradecimentos; se lhe davam uma flor, guardava-a com todo o carinho e cuidado. Os amigos me escreviam este ano: “Que pecado que você não esteja conosco!” e ele, não sabendo disto me disse: “Você está sempre conosco, mesmo se estiver longe”. Ele compreendia tudo...
A gente podia exprimir qualquer sentimento para ele – porque era sincero – pois era seguro de ser sempre compreensivo.
Ele só não entendia as duplicidades.
Os afetos mais delicados eram tão cultuados por ele, que não se poderia imaginar alguém superior ou mais fiel. Quando íamos a Sauze, naquele dia que nevava, a sua maior preocupação era um boné escocês: não queria molhá-lo nem amassá-lo porque fora a sua irmã quem lhe dera de presente. E você se lembra que seus cabelos ficaram cheios de neve e então lhe enrolamos na cabeça uma echarpe, o que o fez ficar parecendo um Sheik? E ele ria. Mas quanto ao seu boné escocês, estava bem quentinho, não na sua mochila cheia de latas, mas na minha, devidamente embrulhada com lã.
E quando chegamos, ele quis oferecer seu vinho branco, e nos parecia que ele era o rei de Sauze e que todo o resto do mundo fosse ridículo comparado a nós. E pensar que eu não sabia nem mesmo colocar meus esquis. Oh! Juventude maravilhosa que nascia dele e em torno dele e nos desarmava rapidamente, nos deixava tão alegres, tão dispostos a nos elevar, tão livres de qualquer apego mortal, tão próximos do Deus que ele parecia ter dentro de si! Quem nos dará outra vez esta alegria purificadora? Quem renovará, não somente sobre nossos olhos, mas em nós, o milagre da santidade alegre, despreocupada e delirante como as fontes alpinas, frescas e restauradoras?
Eu penso que passou perto de mim um grande milagre de graça e que a minha obtusidade nem se apercebeu disso. Não que eu não tenha percebido qualquer coisa de absolutamente extraordinário nele. Mas eu não soube lhe pedir ajuda! Não aprendi nada, nada!
E depois, eu não entendi! Oh! Que tarde, Marco, a última tarde que nós ficamos juntos, ele já não estava bem.
Naquele inverno, na sua roupa de montanha nova, parecia fundido no bronze. Pareceu-me que ele estava abatido, magro, cansado: eu pensei que eram os exames. No verão, porém, ele começava a se destacar de nós: “Está pálido, Frassati”. E ele respondia: “Eu preciso de montanha!” Sim, ele precisava sair, para o Alto! E não conosco!
Eu não consigo encontrar paz. Tudo aquilo que me parecia um dom de vida, agora me parece um castigo, um laço que nos prende a esse mundo. A verdade está lá, sobre aquele leito, onde irradiava uma dignidade sobre-humana. Resplandece a Lua que nós esperávamos ter por companhia durante nossa ascensão; e ele não está mais conosco.
E ele dá força aos seus pobres parentes para viver: dará a nós o amor ativo que devem possuir aqueles a quem concedeu o presente incomparável da sua amizade.
Iremos encontrá-lo juntos?
Eu recordo e choro sozinha, [...] e não posso falar a ninguém da minha dor, porque me parece que iria profaná-lo. Somente Laura, Tina, você e Severi sabem o que éramos nós seis e qual era o gênero da nossa comunhão de espírito e de alegria que ele havia criado. Mas ele nos puxava e nós o seguíamos: será que nós saberemos caminhar, agora que estamos sozinhos à prova? Tentaremos, não é verdade? E nos ajudaremos. Por que, antes, Pedro Jorge me ajudará!
Perdoe-me querido Marco, e veja se tenho razão por chamá-lo de irmão. Este fulgor, que envolveu nossas almas tão profundamente, nos dá consciência clara dos nossos sentimentos e dos nossos deveres. Agarremo-nos à cruz e queiramos bem à sua memória, como se mais do que nunca ele estivesse junto a nós. Talvez vejamos resplandecer o seu sorriso. Ó bondade, tu és luminosa e mais quente que o Sol, tu és eterna
!”.

Carta de Pedro Jorge ao amigo Marco


Querido Marco, pecado que empenhos sérios te prendam em Livorno; caso contrário você certamente estaria conosco para dividir as alegrias e os inconvenientes de um acampamento há 2500 metros de altura, em pleno frio do mês de novembro. Fomos com a intenção de acampar em Bessanese. Quando chegamos a Balme e vimos a rocha cheia de neve, nos pareceu imprudência partir para Bessanese. Perdemos assim, quase duas horas até Balme e estávamos há duas horas do alojamento. Depois do Planalto dos Mortos, a neve começou a cair cada vez mais gelada e precisamos prosseguir com lentidão, porque não tínhamos as mãos livres para nos apoiarmos nas picaretas. O cansaço e a incerteza nos aconselharam a acampar ali mesmo. O bom amigo Ceruti se deu ao trabalho de providenciar o acampamento, encontrando uma rocha sobre a qual estava um teto pendente, onde se declinava um pouco de neve. Escavamos, então, um pequeno apartamento composto dos seguintes cômodos: um quarto de dormir para três, sala de jantar, cozinha, recepção, grande corredor com sacada, onde se podia gozar de uma magnífica vista que unia nosso apartamento com o apartamento número 100. O nosso magnífico apartamento media 1,50 metros de profundidade, 50 centímetros de largura e 40 centímetros de altura. O aquecimento estava com defeito mas, em compensação, a ventilação era muito boa e os ditames da higiene foram fiel e rigorosamente observados. Saudações terrorísticas! Robespierre

domingo, 20 de fevereiro de 2011

Carta de Pier Giorgio ao amigo Isidoro



Turim, 27 de fevereiro de 1925

"...cada dia mais, eu compreendo que grande Graça é ser Católico. Pobres desgraçados os que não tem uma Fé: viver sem uma Fé, sem um patrimônio para defender, sem sustentar uma luta contínua pela Verdade não é viver, mas fingir que se vive. Não devemos "ir levando" a vida, mas vive-la de fato, porque mesmo diante de todas as nossas desilusões temos que nos recordar que somos os únicos que poussuem a Verdade, que temos uma Fé a sustentar, uma Esperança a alcançar: a nossa Pátria. Por isso, me previno de toda melancolia que recae sobre os que perdem a Fé. As dores humanas nos ferem, mas se são vistas sob a luz da Religião e, portanto, da Entrega, tais contratempos não nos serão nocivos, mas salutares, pois nos purificam a Alma das pequenas e inevitáveis manchas das quais, nós homens, por nossa natureza ruim, tantas vezes nos maculamos".

sábado, 19 de fevereiro de 2011

Meu amigo Pier Giorgio


Que me perdoe a Tradição Apostólica e me corrija o Sagrado Magistério se o que disser estiver eivado de erro, mas sempre considerei, pelo nada que sei do Tudo, que uma das características mais fascinantes do Bom Deus é Seu exagero. Penso, por simples questão de experiência, que a Divina Pessoa do Senhor é exagerada... Que tal asserção, pelo Amor dEle e por Ele, jamais possa soar como blasfêmia, mas como pura declaração do meu claudicante amor de filho perdulário. É que enxergo, com bastante clareza, esse exagero na criação. O sol, por exemplo, não precisava ser tão brilhante nem tão quente; o mar não precisava de tanta água nem a terra, de tantas montanhas. Não há necessidade alguma de tantos desertos e tantos grãos de areia neles. Qual a razão de tantas florestas, tantas árvores, tantas folhas nas árvores? Precisava haver um pôr-do-sol totalmente único todo santo dia? E o universo!? Que excesso de grandeza! Tantas estrelas, tantas galáxias, tanta distância!

Vejo, igualmente, os exageros da atuação do Bom Deus na história dos seus eleitos: Abraão não precisava de tantos filhos; Isaac e Jacó, de tantos bens. E aquele exagero todo que o Senhor fez com Moisés? Para que abrir o mar daquele jeito exorbitante? Bem que o povo podia fazer a travessia em embarcações ou, sei lá, deveria haver alguma alternativa mais razoável. E que história excêntrica é esta do Josué parar o sol? Davi, também, não precisava de tanto poder militar nem Salomão, de tanta prosperidade! Nossa Mãe Maria Santíssima precisava ter o coração tão humilde, tão sábio, tão prudente, tão clemente? Ela bem que poderia ao menos responder um “oi” diante da saudação angelical, já que se tratava de anjo e não de serpente, mas a prudência foi mais que absoluta. Ela poderia ter ficado descansando em casa, como Eva estava à sombra da árvore da vida, ao invés de sair correndo para ajudar a prima idosa, um gesto de insuperável humildade para alguém que acabou de ficar sabendo que é Rainha. Porque ela pediu para o Seu Filho antecipar a hora do próprio Bom Deus se os noivos das Bodas de Caná nem reclamaram com ela da falta de vinho? Com razão o Senhor disse: “Mulher, porque te intrometes?”. Intrometeu-se porque é observadora silenciosa e há tanta clemência na Nova Mulher, que ela se antecipa à falta do vinho da alegria de que padecem nossas vidas e intercede a Deus antes mesmo de lhe pedirmos. Que exagero de Mãe o Bom Deus escolheu para Si e para nós!

Tal Pai, tal Filho, não diz o ditado? O Senhor Jesus patenteia muito dessas demasias tão divinas. Já conheci muita gente pobre, mas nunca um pobre que tenha nascido em um estábulo. Francamente, que pobreza exacerbada! E a adúltera? Na minha opinião, ela merecia, ao menos, uma bronca do tipo: “olha, fulana, eu aliviei a tua, mas qual é, né? Cria vergonha nesta tua cara!”. Que Misericórdia transbordante aquele “Nem eu te condeno”! Que doçura aquele silêncio não inquisitório, mas revestidor - não quebra uma cana rachada, não apaga uma lâmpada que ainda fumega! Outra coisa: é tarefa difícil entender o Deus onipotente se encerrar em um Homem submetido à matéria e ao tempo, mas me é impossível sequer intuir a beleza da atitude desse Deus encarnado que se torna amigo íntimo dos homens – lembro-me de João reclinado em Jesus na última ceia. E para que uma morte daquela? O Seu Amor já não seria inconteste apenas pelo fato de ter vivido conosco? O sacrifício de Alguém de natureza tão excelsa ter que se rebaixar tanto para viver com gente do nosso naipe já me parece suficiente para retificar todos os erros da humanidade inteira, mas o Bom Deus preferiu se submeter, Ele mesmo, à nossa morte – o mesmo Bom Deus que se comoveu diante da viúva de Naim! E que morte é essa, a da Cruz? Porque não escolher enforcamento? Envenenamento seria mais fácil, não? (Olha a elegância do Sócrates!) Que exagero de morte, que exagero de feridas, que exagero de dores, que exagero de humilhação... Há tanta abundância nessas demonstrações que a eternidade não parece ser suficiente para que os eleitos da Santa Igreja discriminem tamanhas dádivas, de um Deus intangivelmente generoso, que dá muito além do que podemos pedir.

A Luz desses exageros magnânimos é mais que suficiente para preencher cada fresta da História, pretérita e futura, e solucionar todos os desentendimentos, toda injustiça, todo desmando. Chove, sobre cada homem deste mundo, mais graças do que ele pode aproveitar. Mas como se não bastassem tantas riquezas e prodigalidades, o Bom Deus ainda insistiu em dar à criatura amada todos os meios de salvação, de elevação, de dignificação, de modo que, diante da Justiça, ninguém possa comparecer e dizer: sou ruim porque não conheci a bondade na minha vida. De fato, ao dar As Chaves ao Sumo Pontífice Pedro e instituir Sua Igreja o Senhor Deus, mais que a faculdade de reabrir as portas do paraíso fechadas a todos por Adão e Eva, entregou-se a Si mesmo: o Seu Corpo, a Sua Misericórdia, a Sua Justiça, os Seus Dons, a Sua Santidade, o Seu Sacerdócio a fim de que os homens fossem, mais uma vez, uma só coisa nEle, como Ele o é no Pai. E é apenas disso que trata a imensa loucura do cristianismo: sermos o Cristo – e o próprio Deus por tabela!

Por isso, com muita razão, os santos dizem crer na Santa Igreja Católica Apostólica Romana, a Nova Jerusalém, a antecipação do Reino dos Céus! Mas dir-nos-iam os experts em história dos clichês: ó, católicos obtusos, vocês não enxergam os erros institucionais! Dir-nos-iam, igualmente, as ressentidas e sempre invejosas viuvonas do comunismo: ó católicos burgueses, vocês são viciados em ópio, incapazes de enfrentar a realidade (detestável auto-projeção). Dir-nos-iam, ainda, os ímpios que se modificam caoticamente como células cancerígenas: católicos idólatras, babilônia, adoradores da besta, vocês deveriam orar e conhecer o jesus-instant-delivery-boy, entregador de bens terrenos e mestre das sensações teofânicas. Mas mesmo os ataques desferidos contra a Santa Igreja Católica servem à pródiga Providência: estimulam o crescimento, aprofundam a consolidação dos Fiéis e, por isso, apesar de serem detestáveis, as perseguições devem ser vistas como a certeza de que não são mera circunstância passageira, mas prerrogativa basilar do verdadeiro discípulo do único Senhor. Até mesmo os anjos caídos, embora não o queiram, se rendem instrumentos utilíssimos do Bom Deus e nos mostram com grande clareza que nosso único mérito é a Misericórdia Divina. Por isso não há na alma católica a pretensão de ser imaculável. Nunca cremos que o fossemos (como a mídia acha que ela mesma é), mas nossos terríveis erros não nos espantam nem um pouco. Nossa liberdade é ferida pelo pecado e nosso único mérito é a Misericórdia!

Esse Mérito da Misericórdia, e só Ele, sustenta a proficuidade misteriosa dos Sacramentos. Desse mérito os doutores haurem o sumo dos dogmas, os luzeiros que iluminam os passos da Divina Esposa. Por esse Mérito se tornam válidos os sacrifícios dos mártires e inocentes e é nele onde a Igreja Militante bebe a saciedade. Pela força desse Mérito, os piores pecados simplesmente deixam de existir quando os réus se proclamam culpados diante do divino Tribunal da Igreja, o Confessionário. É o fogo desse Mérito que dá vida aos santos e os orna dos dons que atraem nossa veneração. Só esse Mérito repara a verdadeira liberdade do homem e o acorda da anestesia mórbida causada pelo pecado.

Bem, e o que fazem estas minhas divagações no site de P. G. Frassati? Ora, ele me foi instrumento dessa Misericórdia! Foi por ele que passei a me incomodar com meu comodismo. Frassati foi para mim o rosto alegre e jovem dessa Igreja que acabo de mencionar, mas que antes eu julgava ser enfadonha e anacrônica. Frassati me importunou com a Verdade certeira, com a Meta, com a Direção, a despeito dos meus pobres relativismos e contemporizações – quem é amigo de Frassati sabe quão intransigente ele sabe ser. É esse amigo que me ensina a apreciar a verdadeira beleza da criação: ele via com clareza o reflexo do Criador nas criaturas e, não servindo a elas, se servia delas para chegar a Ele. Sinto aquele apaixonado “Montagne, montagne, montagne! Io vi amo!” dentro de mim.

Quem, ao conhecer Pier Giorgio Frassati, não se sentiria intimado a lutar até o fim pela verdadeira Vida? Quem permaneceria ileso ao entrar em contato com a vitalidade de sua caridade, ternura, jocosidade e bondade? Parece-me impossível que alguém não se emocione ao ler determinados episódios da vida de Frassati: suas lutas, suas renúncias, sua grandeza, sua morte. É claro que ele é uma "baita" inspiração! Para mim, entretanto, ele é muito mais que um exemplo: ele é amigo mesmo, pra valer, daqueles que estão presentes sempre que você precisa ou mesmo quando acha que a presença deles é impertinente. O Frassati esteve presente comigo nas melhores amizades que eu tive na vida, nos meus momentos mais divertidos... Ele estava lá, também, nas perdas... Está presente nos meus planos e, talvez, se não o tivesse conhecido, jamais saberia o verdadeiro significado da palavra “apostolado”. Nem sei contar quantos amigos ele me apresentou – e olha que ainda não fiz trinta anos...

Ele me incita Para o Alto sempre, mas, além disso, a presença amável de Frassati na minha vida, evoca em mim a intuição da Magnanimidade que tentei descrever puerilmente acima... Como agradeço a esse Bom Deus por ter escolhido Frassati, este sinal exuberante de santidade, para me fazer reconhecer em mim o desejo doloroso que eu tenho do Céu! Que saudades eu tenho deste Patrimônio que nunca tive, mas irei possuir! Bendita sejas, ó Comunhão dos Santos, ó Corpo Uno do Nosso Senhor! Que instrumento salvífico fantástico o de irmãos, o de amigos que se amam! Nem a morte nem o tempo podem destruir esse vínculo! As virtudes dos fortes indulgenciam o vício dos fracos!

Ó, meu tão querido amigo do Céu, perdoe-me se me excedo e se mudei mil vezes de estilo ao tentar escrever sobre você, mas é apenas a tentativa pífia (e emocionada) de responder a tanta Bondade! Como nosso Senhor é Bom! Como é Grande!! Jesus Doce, Jesus Amor! Essa maravilha que eu sinto não é ainda o Céu? Não consigo imaginar, então, o que seja! Pier Giorgio, amigo daqueles que não tem amigos, obrigado pela força da tua vida! A vida que não é tua, mas dEle! É Ele mesmo quem vive em você agora e por essa razão você está tão vivo quanto estava nas excursões às montanhas! Meu querido amigo, ajuda-me a alcançar arrependimento verdadeiro da minha pobreza! Ajuda-me a subir esta montanha tão difícil e a lutar incansavelmente pela Verdade de Cristo! Anima-me muito o fato de que, quando chegar ao Alto, estaremos juntos a contemplar "no ar puro da Glória a que fomos destinados a Grandeza do Criador"! Obrigado, meu amigo Pier Giorgio! Bendito seja o Senhor nos seus anjos e nos seus santos!