
“Marco, é a primeira noite que Pedro Jorge está fora de casa... Ao menos a sua pessoa santa, que ontem eu tive a graça de contemplar em uma luz de beleza e de pureza indivisíveis.
Não tenho com quem chorar, e penso em você, que em tudo estava mais perto dele do que eu.
Diante daquele leito, que me pareceu um altar, eu senti pela primeira vez, com uma emoção que nunca poderei exprimir, que a morte vem do Alto e que para Pedro Jorge foi uma assunção.
Reconheço-me agora indigna por ter me aproximado desta alma, que tremo a esse pensamento. Fico cheia de confusão e de dor quando penso que - vendo-me agora como verdadeiramente sou – Pedro Jorge tenha que me riscar do número dos seus amigos como uma das coisas vãs e menos dignas de quem não devia ter se aproximado nesta terra. Ou talvez a sua caridade acendendo-se de maior ardor, terá piedade de quem mais precisa?
Parece-me que se realizou para mim a palavra do Evangelho: “Ferirei o pastor e as ovelhas ficarão dispersas”. Era a sua bondade que nos mantinha unidos.
O Senhor contou os passos que ele dava para vir a mim e à minha mãe, para me trazer felicitações e saudações; as suas palavras invariavelmente serenas, a luz dos seus olhos dulcíssimos; que eram de crianças na ingenuidade e de vidente na profundidade. Quem poderá apagar da nossa lembrança o seu sorriso, e quem o poderá restituir?
E o Senhor, Marco, nos presenteou aquela noite na ferrovia, entre Turim e Oulx, na brancura da neve. Deus permitiu que gozássemos de sua presença e o admirássemos de várias maneiras: com aquele casaco impermeável, ajudando os ferroviários a transportar as bagagens, e depois indo de um extremo ao outro do trem, debaixo de neve e de água, a declamar os seus caros versos – Carducci e Marradi – em voz alta, porque achava que ninguém o escutava. Aquela voz chegava até nós como ondas, ora muito fortes, ora fraquinhas! Como a gente ria! Só ele podia fazer assim, isto é, ser pura e simplesmente ele. Não se lembra quando voltou ao seu lugar, da tempestade de protestos com que foi recebido por ser tão barulhento? Veio sentar-se tranquilamente perto de mim. Julguei logo depois que ele estava dormindo... Não, estava rezando o terço. Oh! Esse, terço de contas pardas que nos deixou, se até anteontem me era precioso, hoje me é sagrado, porque prefiro deixar tudo a perdê-lo.
E dizer que nós comemos naquela noite – nós moças – e ele mesmo nos animou a isso, com medo de ficarmos incomodados no dia seguinte; mas ele não, não comeu. Parece que ainda estou vendo você dormindo pela madrugada naquela plácida alvura de sonho, naquela capelinha, em redor dum pequenino altar em que vocês pareciam tão fortes e bons que me senti absolutamente distante de vocês.
Sem ele, quem ainda irá à montanha? Oh! E a sua mochila? Não se lembra daquela sua mochila e das pedras com que ele enchia – para encontrar um átomo de granada – dizíamos nós – e ele ria, ria e esplendia sua alegria. Lembra-se do seu assobio para chamar quem estava distante? E os seus cafés da manhã? Do doce para o salgado, do ácido para tornar ao doce e recomeçar com o salgado. E eu: “Mas Frassati, você me faz perder o apetite!” E ele se desculpava como um réu que havia cometido uma grande falta e nos oferecia todas as suas boas coisas com aquela voz profunda, com aquele grande gesto, que quem o tiver fixado na alma, lembrará sempre como imagem viva de sua cordialidade.
E depois tinha gentilezas tão delicadas, tão esquisitas, que aquela sua cabeça forte lembrava, em alguns momentos, despreocupado e sonhador como uma criança. Se lhe ofereciam uma laranja, desfazia-se em agradecimentos; se lhe davam uma flor, guardava-a com todo o carinho e cuidado. Os amigos me escreviam este ano: “Que pecado que você não esteja conosco!” e ele, não sabendo disto me disse: “Você está sempre conosco, mesmo se estiver longe”. Ele compreendia tudo...
A gente podia exprimir qualquer sentimento para ele – porque era sincero – pois era seguro de ser sempre compreensivo.
Ele só não entendia as duplicidades.
Os afetos mais delicados eram tão cultuados por ele, que não se poderia imaginar alguém superior ou mais fiel. Quando íamos a Sauze, naquele dia que nevava, a sua maior preocupação era um boné escocês: não queria molhá-lo nem amassá-lo porque fora a sua irmã quem lhe dera de presente. E você se lembra que seus cabelos ficaram cheios de neve e então lhe enrolamos na cabeça uma echarpe, o que o fez ficar parecendo um Sheik? E ele ria. Mas quanto ao seu boné escocês, estava bem quentinho, não na sua mochila cheia de latas, mas na minha, devidamente embrulhada com lã.
E quando chegamos, ele quis oferecer seu vinho branco, e nos parecia que ele era o rei de Sauze e que todo o resto do mundo fosse ridículo comparado a nós. E pensar que eu não sabia nem mesmo colocar meus esquis. Oh! Juventude maravilhosa que nascia dele e em torno dele e nos desarmava rapidamente, nos deixava tão alegres, tão dispostos a nos elevar, tão livres de qualquer apego mortal, tão próximos do Deus que ele parecia ter dentro de si! Quem nos dará outra vez esta alegria purificadora? Quem renovará, não somente sobre nossos olhos, mas em nós, o milagre da santidade alegre, despreocupada e delirante como as fontes alpinas, frescas e restauradoras?
Eu penso que passou perto de mim um grande milagre de graça e que a minha obtusidade nem se apercebeu disso. Não que eu não tenha percebido qualquer coisa de absolutamente extraordinário nele. Mas eu não soube lhe pedir ajuda! Não aprendi nada, nada!
E depois, eu não entendi! Oh! Que tarde, Marco, a última tarde que nós ficamos juntos, ele já não estava bem.
Naquele inverno, na sua roupa de montanha nova, parecia fundido no bronze. Pareceu-me que ele estava abatido, magro, cansado: eu pensei que eram os exames. No verão, porém, ele começava a se destacar de nós: “Está pálido, Frassati”. E ele respondia: “Eu preciso de montanha!” Sim, ele precisava sair, para o Alto! E não conosco!
Eu não consigo encontrar paz. Tudo aquilo que me parecia um dom de vida, agora me parece um castigo, um laço que nos prende a esse mundo. A verdade está lá, sobre aquele leito, onde irradiava uma dignidade sobre-humana. Resplandece a Lua que nós esperávamos ter por companhia durante nossa ascensão; e ele não está mais conosco.
E ele dá força aos seus pobres parentes para viver: dará a nós o amor ativo que devem possuir aqueles a quem concedeu o presente incomparável da sua amizade.
Iremos encontrá-lo juntos?
Eu recordo e choro sozinha, [...] e não posso falar a ninguém da minha dor, porque me parece que iria profaná-lo. Somente Laura, Tina, você e Severi sabem o que éramos nós seis e qual era o gênero da nossa comunhão de espírito e de alegria que ele havia criado. Mas ele nos puxava e nós o seguíamos: será que nós saberemos caminhar, agora que estamos sozinhos à prova? Tentaremos, não é verdade? E nos ajudaremos. Por que, antes, Pedro Jorge me ajudará!
Perdoe-me querido Marco, e veja se tenho razão por chamá-lo de irmão. Este fulgor, que envolveu nossas almas tão profundamente, nos dá consciência clara dos nossos sentimentos e dos nossos deveres. Agarremo-nos à cruz e queiramos bem à sua memória, como se mais do que nunca ele estivesse junto a nós. Talvez vejamos resplandecer o seu sorriso. Ó bondade, tu és luminosa e mais quente que o Sol, tu és eterna!”.
